16-Dez-2010
Naercio Menezes Filho
Foram divulgados na semana passada os resultados do Pisa 2009, o
Programme for International Student Assessment, da responsabilidade da
OCDE, com o desempenho dos alunos de vários países nos exames de
proficiência em leitura, matemática e ciências. Esses resultados são
muito aguardados pelos países participantes pois revelam como está o
aprendizado dos alunos com 15 anos de idade, fazem um ranking de
países e mostram sua evolução ao longo do tempo. O que mostram esses
resultados?
A grande surpresa deste ano foi o desempenho dos estudantes da
província chinesa de Xangai, que participaram pela primeira vez do
exame e obtiveram um desempenho espetacular. Os estudantes chineses
ficaram em primeiro lugar em leitura, matemática e ciências, superando
todos os países da OCDE e os demais países participantes. Em
matemática, os chineses obtiveram 600 pontos, quase 38 pontos acima do
segundo colocado (Cingapura), 113 pontos acima do Estados Unidos e 214
pontos acima da média dos alunos brasileiros. Se compararmos os alunos
de Xangai com os do Distrito Federal (a unidade brasileira com melhor
desempenho), a diferença é de 175 pontos. Alguém ainda tem dúvidas de
que os chineses irão dominar o mundo?
O desempenho dos alunos brasileiros continua muito ruim, mas vem
crescendo ao longo dos anos. Entre os 65 países que participaram do
exame, o Brasil ficou em 57º lugar em matemática. Para termos uma
ideia de quão crítica é a nossa situação, 70% dos alunos brasileiros
estão no nível mais baixo de desempenho em matemática, em comparação
com apenas 4,8% dos alunos de Xangai e 8,1% dos coreanos. Em relação
aos nossos vizinhos sul-americanos, os alunos brasileiros obtiveram um
desempenho em leitura parecido com os colombianos, acima dos
argentinos e peruanos, mas abaixo dos chilenos e uruguaios. E pensar
que os argentinos estavam entre os povos mais educados da América
Latina no início do século passado.
Enquanto os chineses tratavam de fazer sua educação competitiva, os
brasileiros discutiam a taxa de câmbio
Entre 2000 e 2009 o desempenho dos alunos brasileiros aumentou 16
pontos em leitura, 52 pontos em matemática e 30 pontos em ciências.
Assim, o maior avanço foi em matemática, disciplina em que os alunos
brasileiros tinham o pior desempenho. Mas, é preciso aumentar o ritmo
desse avanço, caso contrário levaremos 40 anos para alcançar o
desempenho atual dos chineses. Outro ponto importante é que o nosso
aumento da proficiência em leitura ocorreu às custas de uma maior
desigualdade. Enquanto o desempenho dos nossos melhores alunos
aumentou cerca de 30 pontos, entre os piores praticamente não houve
melhora.
Assim, a desigualdade na qualidade da educação está aumentando. Vale
notar também que grande parte do avanço obtido em leitura ocorreu
entre as meninas, sendo que o crescimento da nota entre os meninos foi
insignificante.
Vale a pena contrapor a nossa evolução educacional com a ocorrida no
Chile. Em leitura, por exemplo, o desempenho dos alunos chilenos
aumentou 40 pontos, mais do que o dobro dos brasileiros. Entretanto,
no caso do Chile o desempenho aumentou mais entre os piores alunos do
que entre os melhores. Assim, a qualidade da educação no Chile
melhorou com queda na desigualdade, o melhor dos mundos. Por fim, a
melhora ocorreu tanto entre os meninos como entre as meninas. Mas, que
políticas educacionais tiveram efeito tão positivo no Chile?
Segundo o relatório do próprio Pisa, as principais políticas parecem
ter sido o foco nas escolas com pior desempenho, o aumento do número
de horas-aula, mudanças no currículo nacional, aumento dos gastos com
educação e avaliação completa do desempenho dos professores das
escolas públicas, incluindo observação do seu desempenho em classe. Os
professores que forem reprovados três vezes nessa avaliação são
demitidos. Além disso, as escolas e os professores com melhor
desempenho recebem mais recursos e maiores salários. Aumento de gastos
com mais horas-aula, acompanhado de medidas que introduzam a
meritocracia na vida escolar parece ser a receita para o sucesso.
Em suma, o desempenho dos alunos brasileiros vem melhorando na última
década, graças a uma série de políticas educacionais corretas que
foram sendo introduzidas por diferentes ministros, no sentido de
descentralizar a gestão, criar sistemas de avaliação, divulgar os
resultados das avaliações por escola e estabelecer metas para cada uma
delas. Além disso, inovações nas redes estaduais e municipais de
educação, principalmente aquelas com ênfase na meritocracia, tiveram
um papel importante.
Entretanto, esse avanço tem ocorrido de forma lenta e puxado pelo
desempenho dos melhores alunos e das meninas. Assim, enquanto a
desigualdade no acesso à educação está declinando e puxando para baixo
a desigualdade de renda, a desigualdade na qualidade da educação
caminha no sentido contrário, o que retardará a queda na desigualdade
de oportunidades.
Por fim, os resultados do Pisa mostram claramente que os chineses
estão fazendo a sua lição de casa, obtendo avanços significativos nas
questões mais fundamentais da sua sociedade, para torná-la mais
competitiva. Enquanto isso, os brasileiros passaram o ano inteiro
discutindo a taxa de câmbio!
Naercio Menezes Filho é professor Titular – Cátedra IFB e coordenador
do Centro de Políticas Públicas do Insper e professor associado da
FEA-USP
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